Luca e Liriel (Fanfic)






Comecei a batucar uma melodia qualquer com minhas mãos na mesa do refeitório, enquanto meus amigos conversavam sem parar. Roberto estava por aí, enquanto me deixava aqui, sozinha. Provavelmente chegaria com alguma desculpinha esfarrapada, e me chamando de amorzinho. 
Ele iria ver quem era o amorzinho agora! Levantei da mesa com um movimento brusco, e saí pisando duro pelo refeitório, vasculhando com o olhar cada canto do lugar, parecendo que meus olhos tinham raio-x. 
Escutei algo atrás de mim, parecia com a voz de Roberto. Virei para trás para checar, e não era ele. Quando voltei a andar, senti uma bandeja ir com tudo na minha blusa predileta, derramando refrigerante e molho nela. 
Meus olhos arderam de raiva. 
Um loiro, acompanhado de uma menina morena e baixinha com cara de espantada, balbuciava algo como desculpas, tentando limpar minha blusa com as mãos. Dei um tapa na mão dele, e o encarei inexpressiva. 
- Acho que ela vai explodir. - a moreninha murmurou, dando cotoveladas no loiro.
- Você. - falei, com um olhar raivoso e a voz baixa de tanto ódio. - Estragou minha blusa. A predileta; 

O loiro parecia paralisado, como se tivesse visto uma assombração. Era melhor ele ter medo mesmo. A morena, que parecia tagarela, entrou na frente dele, como se uma coisinha nanica daquela conseguisse proteger um cara bem mais alto e mais forte. 
- Desculpa o Luca. Ele é meio desastrado assim mesmo! Na primeira vez que eu vi ele, fiquei toda molhada de tinta amarela. - ela deu uma risadinha nervosa, e passou a mão pelos cabelos, empurrando o tal do Luca um pouco para trás.
Como se não tivesse escutado nada, empurrei a menina de lado e andei até o loiro, que agora parecia revestir o rosto com uma expressão de neutralidade. E depois deu um sorriso. Rangi os dentes. 
- Então, é assim que funciona aqui? Você sai derramando comida nas pessoas e acha que com um sorriso tudo vai ficar bem. - gritei, atraindo mais olhares para mim. Ótimo, todo mundo vai achar que eu sou barraqueira. - Juro que se eu tivesse uma arma aqui, eu estouraria seus miolos.
A menina que o acompanhava levou as mãos na boca e olhou para Luca, esperando uma resposta dele. 
-Não sei se já te falaram isso, mas você é, de longe, a mulher mais linda e cheirosa que eu já conheci na vida. - ele respondeu, pegando minha mão direita e beijando. Fiz uma careta, achando tudo aquilo estranho demais.
Puxei a mão num gesto brusco e limpei a baba dele na minha calça. Idiota! 
- Você tá me tirando, né? - falei, sentindo um irritante tremor no queixo, que acontecia quando eu sentia raiva. - Olha aqui, projeto de ser humano, primeiramente, eu tenho um namorado que me ama muito. E você estragou uma blusa de valor inestimável para o meu coração. Mesmo que nenhuma blusa nova substitua esta, você vai ser obrigado a me comprar outra linda e perfeita, que eu mesma vou escolher. Entendeu ou quer que eu desenhe?
Ele apenas demonstrou uma reação negativa perante a palavrinha “namorado”. Tirando isso, acenou com a cabeça, parecendo muito, muito, muito feliz. 
Eu digo, repito e assino embaixo: povo estranho. 
- O que você quiser. - ele murmurou. A morena o encarou sem acreditar no que ele estava falando.
- Lucas, seu idiota! - ela gritou, dando um tapa na sua cabeça. 
- Que o Luca é idiota isso todo mundo sabe. - uma cópia do Luca com uma cara mais fechada disse, atrás da menina. 
Revirei os olhos, deixando os esquisitos, que estavam na turma do povo com um sotaque russo, para trás. 

Luca


Assisti aquela linda e brava mulher sair pisando duro do refeitório com admiração. Só saí do meu estado de basbaquice quando senti Amanda bater no meu braço sem parar, enquanto Alex ria ironicamente da cena. 

- O que você tem na cabeça? Cérebro com certeza não é. Acorda, eu to falando com você! - ela falou.
- Calma, nanica! - Alex falou rindo, puxando ela pela cintura e a colocando atrás dele, enquanto ela bufava descontente. - Então, parece que o meu irmãozinho finalmente vai saber o que é sofrer. 
Amanda o encarou sem entender, erguendo as sobrancelhas. 
- Sofrer? - perguntei, escondendo uma pequena irritação. – Eu tenho as minhas técnicas de conquista de consorte. 
Na verdade, eu nem sabia do que eu estava falando. Eu não tinha técnica de conquista, nem sabia como eu iria fazer para me aproximar da minha recém-descoberta consorte.
Como se uma lâmpada tivesse acendido na cabeça da Amanda, ela me olhou, com um olhar insinuante, e depois olhou para Alex. 
- É isso mesmo que você esta pensando. - falei, sorrindo.
E aí o escândalo começou, envolvendo coisas como “que lindo, que fofo, que meigo”. Alex a arrastou até os dois sentarem até uma mesa, e ele tentou acalmar sua euforia 
Saí andando na mesma direção que a estressadinha foi, para ver se pelo menos descobriria o nome dela. 

Liriel


Avistei Roberto em uma ala desconhecida da faculdade – não me perguntem como cheguei lá, nem vi para onde que eu estava andando. - conversando bem próximo de uma loira biscate com uma saia tão curta que se ela agachasse um pouco, daria para ver a cor da calcinha dela. 

E pelo jeito que ela conversava, fazendo bolas com um chiclete e tocando o ombro do meu namorado, percebi que tinha a possibilidade de nem calcinha aquela piranha usar. 
- Oi amor! - exclamei, acenando e sorrindo falsamente para ele e para a biscate. - Sabia que tem um galinheiro aqui na faculdade? Parece que hoje deixaram a porta aberta e todas as galinhas saíram ciscando por ai.
Usei um cinismo exagerado, olhando para a biscate loira, que mascava o chiclete como uma vaca comendo capim. Ela nem sorriu, parecendo que tinha entendido a indireta. 
Se a carapuça serviu o problema não é meu! 
- Robertinho, quem é essa daí? - ela perguntou, piscando inocentemente para ele.
- Liriel, namorada do Roberto. Muito prazer. - falei, dando ênfase no Roberto. 
O Roberto odeia quando eu o chamo de Robertinho, mas gosta quando a biscate oxigenada chama? Ah, mas ele vai se ver comigo! 
- Amorzinho, - ele disse, me puxando de lado. Pude ver um pouco de suor escorrendo na sua testa. Semicerrei os olhos e o encarei, parecendo que iria o pulverizar. - essa é a Robertinha. Coincidência, não?
Meu sangue ferveu quando a piranha sorriu de forma maliciosa para ele. 
- Bom pessoal, eu tenho que ir encontrar um amigo, sabe como é, né? Ah, Lirizinha, cuidado para nenhuma galinha ciscar os restos de comida da sua blusa. - ela sorriu. 
Amigo? Aham, ela ia é encontrar um dos namorados entre os milhões que ela tem. 
Roberta biscatinha -seu novo apelidinho carinhoso- saiu rebolando corredor afora, com aquela saia que ela devia ter pegado na seção de roupas infantis e aquela blusa que aparecia parte do umbigo dela. 
Coloquei a mão na cintura e encarei Roberto com cara de poucos amigos. 
- O que? - ele indagou, abrindo um sorrisão e mostrando uma fileira de dentes brancos e certinhos.
Clareamento e aparelho bucal fazem milagres!
- O que? - ri, parecendo que ia explodir de ódio. – Vou te dizer o que. Você e essa piranha, conversando e quase se beijando. No primeiro dia de aula, Roberto? Já ia me colocar chifre no primeiro dia? - Gritei. Sorte que não tinha ninguém no corredor para ver essa ceninha ridícula.
- Liri, - ele murmurou, abraçando minha cintura e depositando um beijo na minha testa. - Ela é só uma menina da minha sala, nada de mais.
Ele me deu um selinho, e sorriu para mim. Puxei-o para mais perto e o beijei profundamente, como se precisasse daquilo para viver. Ele me apertou mais para seu corpo e de repente me soltou, olhando atrás de mim. 
- O que aconteceu? - olhei para trás também, mas tudo o que eu vi foi um corredor vazio.
- Achei que tinha visto alguém. – ele murmurou baixinho, antes de afastar de mim mais ainda e passar a mão na blusa desesperado. – Droga, você sujou a minha camisa nova de comida. 
Revirei os olhos e fui procurar o banheiro mais próximo, para limpar a minha blusa.

Luca


Escutei toda a conversa da consorte com seu namorado e a Roberta. Roberta era bem conhecida na escola como a que dava em cima de todo mundo. Às vezes até de mulheres, mas isso não vem ao caso. Senti um ciúme absurdo dela. Senti inveja do seu namorado, Roberto, por tê-la daquela forma.

Pelo menos, assistindo aquela cena toda, descobri que o nome dela era Liriel. Linda e cheirosa como lírios do campo. Quando o casal começou a beijar, não suportei a decepção e voltei para o refeitório. 
Sentei do lado do meu irmão e senti todos os olhares dos russos e das consortes em cima de mim. 
Claro, a linguaruda da Amanda contou para todo mundo em dois tempos.
- O que vocês estão olhando? Uma pessoa não pode sentar mais em uma mesa que todo mundo começa a te encarar de um jeito estranho. – falei, claramente mal humorado, causando espanto em algumas pessoas e arrancando risadinhas de outras. 
- Luca ta apaixonado, Luca ta apaixonado. – Paty cantarolou de um modo implicante, fazendo com que Eliel cuspisse o que estava tomando na mesa e cutucasse-a com o cotovelo. 
- Sim, eu estou. Algum problema? Que eu saiba, é uma grande honra encontrar uma consorte.  – respondi, mantendo a compostura. 
- Uma consorte brava e com namorado. – Alex falou apenas para me zoar, dando tapinhas de consolo nas minhas costas. 
Revirei os olhos, lutando para não me descontrolar, e encarei meu irmão da forma mais inexpressiva que conseguia, deixando ele desconcertado. 
Ele odiava a minha cara de desprezo. 
- Uma consorte que eu vou conquistar de um jeito que ela vai se apaixonar por mim sem ter que brigar comigo. Diferente de vocês dois, bando de loucos. 
- Sinto lhe informar, primo, - Ben falou, olhando para mim com divertimento nos olhos. – mas todas as consortes dos Tarkovisky são osso duro de roer. E pode ter certeza que você vai apanhar muito dela. 
Ana Sofia deu um tapa no seu braço, rindo, e ele deu um selinho carinhoso nela. 
Queria poder fazer isso com Liriel. Queria fazer isso e muito mais!
Provavelmente eu estaria com cara de idiota agora. É engraçado ver outros tirps sendo idiotas apaixonados, mas não era legal ser assim. 
Sinto que eu vou pagar o preço por ter rido do meu irmão. 

Liriel


As aulas acabaram e eu saí furiosa para o estacionamento, por ter percebido que eu e o tal do Luca estávamos fazendo o mesmo curso de paisagismo. E ele ficava tentando se aproximar o tempo todo. Coincidência cruel, cruel, cruel...

Não quis nem esperar Roberto, saí andando por entre os carros, tentando encontrar o meu. 
Avistei Luca encostado em uma moto preta, me encarando e dando um sorriso para mim. Senti um arrepio na espinha.
Provavelmente ele estava se achando o rei dos gostosões bonitos, já que pelo grupinho que ele andava, todos se achavam lindos e sedutores.
E eles eram, mas esse não é o caso.
- Liriel! – ele gritou, acenando. 
- Quer derramar mais alguma coisa na minha roupa? Se quiser, a hora é agora, amigo. – soei ríspida em excesso, mas nem liguei, ele merecia. 
- Você não queria uma nova blusa? Que tal eu te levar no shopping e te comprar a melhor blusa de lá. – ele sorriu deslumbrante. 
- Não é mais que a sua obrigação. – fiz a minha melhor pose de desprezo e olhei para os lados, vendo se Roberto estava por ali. 
Barra limpa! Já que o meu namorado quer ficar ciscando por ai, vou dar uma voltinha com um loiro gato e desastrado. Isso não é crime, e muito menos traição. 
Aceitei o capacete estendido para mim e montei na garupa da moto, abraçando ele por trás. Pude ver que ele sorria com o toque, mas resolvi ignorar.
Cara, qual parte do “eu tenho um namorado” aquele serzinho não entendeu? 
**
Sabe o que é assustador de verdade? Um cara que você nem conhece simplesmente comprar lindas blusas para você, sendo que te conheceu hoje. E o pior era eu recusando tudo, na maior falta de educação. 
Mas ele deve provavelmente estar me confundindo com uma interesseira qualquer que ama ser presenteada por desconhecidos para depois me levar para cama. 
Não pode dar moleza para esses caras de hoje não. Uma hora eles estão super legais e na outra estão pedindo para você devolver favores. 
E ele parecia ser um cara desses, já que ficava olhando meu corpo toda vez que eu experimentava uma roupa. Aquilo me irritava profundamente, mas sempre quando eu fazia menção para ir embora, ele pedia desculpas.
Sabe qual é a pior parte de ficar perto dele? Os pensamentos impróprios. Do tipo ele, de cueca na minha cama, me abraçando por trás e sussurrando coisas safadas no meu ouvido...
Droga, chega desse tipo de pensamento, Liriel! Mas não era minha culpa se o meu namorado nesses tempos para cá me largou de lado. 
Só percebi que eu tinha entrado em uma loja de lingeries com Luca quando ele começou a sacudir uma calcinha com estampa de oncinha na minha cara, falando coisas do tipo “você deveria experimentar essa para eu ver”. 
- Como você me traz aqui, seu maluco! – gritei, empurrando ele para fora da loja, enquanto a atendente gritava “Mas o casal não vai querer nada?”. 
- Você estava tão perdida na sua cabecinha oca, que nem reparou quando eu te empurrei para dentro. Sinceramente, eu tinha esperança que você experimentasse aquela lingerie. – seus olhos brilharam, parecendo que estava imaginando a cena. Dei um tapa no seu braço. 
- Droga, vim para o shopping com um super pervertido idiota e metido a legal.
- Eu sou legal. Geralmente eu sou. Mas perto de você, eu não consigo me controlar. – ele chegou mais perto e eu dei um passo para trás, por instinto. 
Mordi os lábios com força, de tanto pesar. Caramba, eu sabia quando tinha um cara afim de mim. Principalmente quando era do tipo sou-gato-sem-fazer-força. Ele era lindo demais, com aqueles olhos brilhantes, sorriso fácil e aquela boca...
Chega, eu tenho que dar um fim nisso! 
- Eu já consegui a blusa que eu queria, agora você pode me levar para casa, projeto de ser humano? 
- Posso sim. – ele sorriu simpático, porem desanimado. 
**
Luca me deixou em casa depois de um longo dia. Encontrar Roberto sentado no sofá com cara de poucos amigos foi um choque. 
Ok, nem tanto. Eu abandonei o cara na faculdade. 
- Robertinha me contou que viu você saindo com um loiro russo qualquer. Verdade, Liriel? – seus olhos verdes faiscaram de raiva. Rangi os dentes de ódio. 
Agora ele é melhor amigo da biscate. Que beleza. 
- Era o cara que derramou comida em mim. – respondi na defensiva. – Ele me levou para comprar uma blusa nova. Eu me senti no direito de sair com um homem, já que você fica beirando a sua adorada Robertinha. 
Roberto ficou vermelho como um pimentão, não antes encarar as sacolas de compras e dar um sorriso de escárnio para mim. Saiu batendo a porta. 
Vai tarde! 
Pensei em ligar para ele, mas eu não estava afim de amassos quentes de reconciliação. Provavelmente ele iria querer forçar alguma coisa que eu não iria querer fazer. 
Se é que vocês me entendem...
Tomei um banho gelado e resolvi dormir só de lingerie mesmo, já que estava muito calor. A última coisa que eu pensei antes de adormecer foi no Luca. 
Isso não podia virar um hábito. 
**
No outro dia, no mesmo refeitório de sempre e no mesmo horário, lá estava eu, sozinha em uma mesa, vendo o Roberto me encarar com cara de poucos amigos. 
E ele estava particularmente lindo hoje, com o cabelo preto e sedoso brilhando e os olhos verdes iluminados. Porém sem sorriso. Droga, como eu sentia falta daquele sorriso. 
Apoiei as mãos no meu rosto e fiquei fitando a comida, que parecia super desinteressante no momento. 
Escutei uma cadeira arrastando do meu lado e alguém sentando. Não quis olhar, mas achei que era Roberto. 
- A comida daqui não é tão ruim assim. – olhei para o lado assustada, vendo que não era a voz do meu namorado, e sim do Luca. 
- Eu não te perguntei nada. – respondi mal humorada. 
- Já que o seu namorado parece ter te deixado sozinha, não quer vir almoçar comigo. – ele disse, sorrindo, e ignorando minha falta de educação. 
Antes de eu responder um não bem redondo, ele emendou:
- E com os meus amigos também, é claro. 
Eu não queria causar mais problemas no meu relacionamento com Roberto, e pensei em recusar a oferta. Mas quando o vi conversando com a estúpida da Robertinha, levantei em um pulo, indo na direção da mesa daquele povinho do sotaque russo. 
Luca veio logo atrás de mim, mas fez o favor de passar na minha frente correndo e puxar uma cadeira para me sentar. 
Me sentindo a rainha da cocada preta, sentei e senti todos os olhares em cima de mim. Principalmente da cópia do Luca, que ficava me encarando com certo divertimento. 
Todo mundo se apresentou, muito simpáticos, até as meninas. Escutei o povo daqui falando que elas eram nojentas, mas eram muito mais legais que noventa por cento do que o resto das garotas da universidade. 
- Então, como anda o relacionamento de você e Lucas? – Arabelly perguntou para mim, sem um pingo de noção. 
Luca engasgou com o que estava comendo e eu provavelmente estava vermelha. 
- Liriel tem um namorado. – ele falou polido, e todo mundo o olhou com uma carinha de pena. – De onde você tirou essa ideia, Arabelly? 
Ele falou, sorrindo nervoso, mas pude ler nos seus olhos “cala a boca, maritaca”. 
- Mas a gente brigou. – deixei escapar. – Ele não esta conversando comigo. 
Alex pigarreou e Amanda deu uma risadinha. Impressão minha ou eles estavam curtindo meu sofrimento? 
- Você não precisa falar sobre isso, Liri. – Emilia disse compreensiva. Sorri para ela e voltei a comer calada, enquanto todos voltavam a conversar menos Luca. Ele também ficou calado, parecendo mais triste do que eu. 
O sinal bateu, e só faltou eu sair dando mortal pelos corredores. O clima de repente ficou muito estranho na mesa, então percebi que aquela era a minha deixa. 
** 
Luca

Estava ficando difícil demais ver Liriel com aquele patife do Roberto. Ainda mais que eu já vi ele e Robertinha juntos acidentalmente.

Ok, eu segui eles para tirar umas fotos da traição e mandar para minha linda e maravilhosa Liriel. Mas eu não queria machucar seu coração, mesmo sabendo que ela só seria feliz de verdade comigo. 
Depois que as aulas na faculdade acabaram, vi uma cena deplorável: Liriel e Roberto brigando, com várias pessoas olhando para eles. Aquilo me fez perder a cabeça. 
O que aquele cara pensava? Ele tinha a mulher mais linda do mundo só para ele, e ainda a tratava mal. Mas eu vou acabar com essa festinha é agora. 
Quando dei por mim, estava marchando até onde eles estavam, furioso e inconformado. Ela tinha que ser minha. Minha. Minha. 
Senti uma mão me puxar para trás e dei de cara com Alex, que agora parecia preocupado. 
Como ele havia chegado aqui? Isso esta parecendo àquelas telepatias estranhas entre gêmeos. Um sente o que o outro sente. 
“Esse tipo de pensamento é influência da Amanda”, pensei desgostoso. 
- Não vá até lá. Com o gênio que aquela mulher tem, provavelmente ela vai ficar brava com você interrompendo suas brigas. E se você machucar o namorado dela, você corre o risco dela passar o dia cuidando romanticamente das feridas do rosto dele. – Alex falou com calmaria na voz, parecendo um pai dando conselho ao filho. 
“Se fosse a consorte dele que tivesse um namorado, o pobre rapaz já estaria morto há muito tempo”. 
Pensei bem e refleti que ele estava certo. 
Quando olhei para os dois de novo, Roberto já ia embora, enquanto deixava uma Liriel em prantos no meio do estacionamento, com todos os olhares em cima dela. 

Liriel 


Malditas lágrimas, parem de escorrer! Inferno é a palavra que resume a minha vida desde que eu cheguei nessa universidade. Senti os olhares de pena de várias pessoas em mim, mas resolvi ignorar e saí correndo. 

“Nossa, parabéns Liriel, que atitude madura”. Mas era o que eu tinha que fazer nesse momento. Depois de todo aquele discurso de eu não ser a namorada que ele queria que eu fosse e falar que eu era um nada para ele na frente de todo mundo, nem a mais forte das mulheres agüentaria o baque. 
Enquanto ia para a casa a pé, senti uma mão tocar no meu ombro e me virar delicadamente. 
Era Luca, que tinha a feição coberta por um misto de preocupação e raiva. Ele limpou as lágrimas que caiam em meu rosto com as pontas dos dedos e beijou minha mão, que tremia de ódio do Roberto. 
- Ele não te merece. – ele disse. 
Regra número um: nunca tente conversar comigo quando eu estou estressada. 
- Não, você esta enganado. Nenhum homem me merece! Mas se eu for olhar isso, vou morrer sozinha, com uma casa repleta de gatos. E isso não é da sua conta, não precisa ficar me seguindo por pena. – gritei, virando de novo e deixando ele para trás. 
Mas pelo jeito, Luca era insistente, e me puxou de novo. 
- O que você quer? – gritei de novo, empurrando ele para trás, sendo que isso não causou nenhum efeito no seu corpo alto e musculoso. 
- Eu quero que você entenda que tem homens por aí que querem te tratar como uma rainha. Será que é muito difícil enxergar isso? – ele parecia mais calmo, porém estava no ponto de explodir. 
- Se isso fosse verdade, meu namorado me trataria bem melhor. 
- Seu namorado é um ogro. – ele exclamou finalmente irritado. Ótimo, e isso deixou bem claro que ninguém é feito só de simpatias. 
Agora, para piorar a situação, uma chuva forte começou a cair. Senti a minha camiseta branca colar no meu corpo. Os olhos de Luca se voltaram direto para os meus peitos. Dei um tapa na sua cara. 
- Você é... Droga! – ele gritou, passando a mão no rosto e provavelmente muito furioso. 
- Você que é! – exclamei, gesticulando com os braços, sem nem saber o que ele queria me chamar. 
- Olha, - ele disse, parecendo conter uma raiva dentro de si. – vamos até a minha casa, é aqui pertinho. Você pega as roupas da Amanda emprestada e se seca lá. Depois eu te levo para casa. 
- Mas nem sonhando que eu vou... – antes de terminar a frase, Luca me pegou pela cintura e me jogou nas suas costas. 
Comecei a espernear e a berrar, mas em uma chuva daquelas, não tinha nenhum maluco andando pelas ruas para me salvar. Depois de cinco minutos, desisti, sentindo as minhas pernas doloridas de cansaço. 
- Você é um ogro, um ogro, um ogro. – berrei, dando murros em suas costas. 
- Eu tentei ser educado, ninguém pode negar que eu tentei. – ele falou mais para si mesmo do que para mim. 
Chegamos naquela mansão que era absurdamente linda. Quando estávamos para entrar na porta da sua casa, ele me colocou no chão, com uma expressão de culpa. 
Entrei primeiro que ele, tremendo de frio, enquanto escutava ele fechar a porta. Quando passávamos pela sala de televisão, vi pelo canto do meu olho Amanda brigando com Alex. 
Invés de continuar seguindo Luca, entrei na sala e fiquei assistindo de camarote a briga. 
- Não Alex, a gente não vai assistir a esse filme ridículo de gente morta. Eu tenho medo, seu mentecapto. – ela gritava, tentando alcançar o DVD que Alex erguia com as mãos, deixando Amanda fora do alcance deles. 
Quando olhei para o lado, vi Luca encostado na parede, tentando esconder um sorriso. Achei aquilo muito charmoso. Acho que estava ficando doente com a chuva em excesso. 
- A gente também não vai ver esse filme de adolescentes bobas que você quer ver. – ele falava e ria, assistindo Amanda dar pulinhos em volta dele, tentando alcançar o DVD. 
- Eles sempre brigam por coisas idiotas. – Luca murmurou, andando até eles e puxando o objeto das mãos de Alex. – Amanda, tem alguma roupa aqui que você possa emprestar para Liriel? 
Amanda olhou para trás, só agora me vendo, e acenou animada para mim. Acenei sem graça de volta. 
- Claro que eu tenho, só não sei se vai servir, já que ela é mais alta que eu. – ela disse, correndo descalça até mim. – Venha, eu te mostro. 
E então ela me arrastou até um quarto moderno, enorme e cheio que coisas tanto femininas quanto masculinas e com uma cama de casal. Abriu a gaveta de uma cômoda e ficou vasculhando um punhado de roupas. 
- Esse quarto é seu e do Alex? – indaguei. 
- É. – ela falou. – Eu queria um quarto separado, mas depois de muitas... Discussões entre nós, resolvemos ter um quarto só para nós dois.  
Ela sorriu maliciosa, e eu sentei na cama. 
- Privacidade é tudo. – murmurei sem graça, perguntando a mim mesma porque eu perguntei de quem era o quarto. Informações demais!
- Nós não fazemos nada demais aqui, se é esse tipo de pensamento que você está tendo.  – ela riu alto, parecendo ter contado uma piada para si mesma. – Nós temos esse tipo de privacidade que você esta pensando no meu apartamento. Muito raramente aqui, quando Luca e o pai não estão.  
Ótimo, agora eu só queria um buraco para enfiar a cara. Gente enxerida merece uns tabefes mesmo. 
Ela jogou um vestido para mim, que provavelmente ficaria meio curto. 
- É o que eu tenho que provavelmente vai servir. – ela disse, andando no quarto de um lado para o outro, como uma anãzinha desesperada. – Então, como vai o seu relacionamento com o Luquinha? 
- Não existe um relacionamento meu com o Luca. – respondi na defensiva. 
- Ah, amiga, pode acreditar, existe sim. – ela riu de novo, jogando uma toalha para mim. – Ele é o cara mais legal, gentil e doce na face da Terra. Ainda me pergunto por que o meu carma me fez apaixonar pela cópia ao avesso dele. 
Pela carinha de boba que ela fez, parecia estar mesmo apaixonada. E pelo que me contaram essa paixão dos russos e suas namoradas parecem sem fim. Por mais estranho que se pareça, principalmente por parte dos meninos. Já me disseram que eles são gatos, mais obcecados. 
- Mas entre mim e o Luca não existe nada. Sério, Amanda. – falei séria. 
- Mas... – ela exclamou, antes de ser interrompida por um Luca sorrindo nervoso. 
- Você deveria ir tomar um banho quente, Liriel. – ele disse, olhando para Amanda com um olhar de advertência, como um pai olha para uma criancinha que acabara de fazer uma traquinagem. – Segunda porta à direita. 
Fui tomar meu banho, achando aquilo estranho demais. 


Luca

- Droga Lucas, eu estava quase convencendo ela de que você é o cara para ele. – ela gritou, gesticulando com as mãos sem parar. 

- Sua bobinha, não cabe a você convencer ela. – segurei os braços dela e olhei em seus olhos. – Ela que tem que descobrir por si só. 
- Mas... 
- Nada de mais. – falei com a voz firme. 
- Quantas vezes eu já te falei para não ficar tocando a minha consorte com essas suas patinhas! – Alex falou, tirando minhas mãos dos seus braços e puxando ela para si. 
Tomara que eu não fique obsessivo e estranho assim!
- Calma, tigrão. – falei gargalhando. – Eu tenho agora uma própria para cuidar. 
- Bom mesmo. – ele disse, murmurando algo para Amanda e puxando ela escada abaixo. 
Fiquei me perguntando se foi a Amanda que tornou o Alex tão estranho, ou o contrário. 
Liriel
Me senti incrivelmente estúpida quando aceitei tomar banho na casa de um completo estranho. Claro que era rico, lindo e boa pinta, mas isso não significa que eu deva sair me banhando na casa dele. 
Só me dei conta que tinha esquecido a toalha quando saí do Box e bati a mão na testa. Ótimo, agora eu poderia sair pelada pela casa ou ficar gritando igual uma idiota até alguém me trazer a bendita toalha. Optei por gritar a plenos pulmões o nome do Luca.
Ele apareceu tão rápido que eu cheguei a me assustar.
- Sim? – ele disse, encarando minha cabeça que passava pela pequena parte da porta que eu abri. 
- Esqueci minha toalha. Pode pegar para mim, por favor? – falei toda embaraçada, provavelmente vermelha de vergonha. 
Só depois que eu disse isso que Luca percebeu que eu estava completamente nua. E o seu rosto se tornou vermelho, sua respiração entrecortada. Ai minha mãezinha, isso não vai prestar. 
- Eu... É... V-vou. Já volto. – e correu como um garotinho pequeno afobado. 
Não sabia se eu achava aquilo engraçado ou fofo. A forma como ele me olhava, parecendo querer ver por trás da porta... É, ele infelizmente estava afim de mim. 
Ou ele é um tarado. As opções são muitas...
Quando voltou, ele jogou a toalha na minha cabeça e saiu a passos rápidos, com as mãos no bolso. Tentei não rir, juro, mas não consegui, e uma sonora gargalhada ecoou pelos corredores. 
Me sequei e por sorte, pelo menos a roupa que Amanda me emprestou eu havia pegado. Um vestido curto demais para o meu gosto. Roberto iria ter um ataque se me visse assim. 
“Ou não”, pensei amargurada e sentindo um gosto estranho na boca. Gosto de tristeza, de saudade. Mordi os lábios, pensando em tudo que ele havia me dito. Eu tinha que terminar com ele, tinha. 
Sai do banheiro e desci as escadas. Encontrei Luca tomando um copo d’água na cozinha, que eu consegui achar porque sou muito enxerida e sai procurando ele pela casa. 
Ele estava sem camisa. Oh Senhor, por que castigas essa jovem pecadora tanto assim? Aquela barriga sarada matava qualquer coração desavisado por ai. Cara, ele era tão lindo, por que  não tinha namorada? 
- Algum problema? – Luca perguntou, andando preocupado até mim e checando minha temperatura com as costas das mão pousando em minha testa. 
- Não, eu só estava... – e agora? Eu respondo que estava olhando sua barriga gostosa? 
- Liriel, você está ardendo em febre! – ele exclamou, com certo desespero na voz. 
- Não, eu não estou. – falei determinada. – E agora, se você não se importa, eu tenho que ir embora. 
Virei em direção à saída da cozinha, mas senti Luca me puxar pelos ombros e ficar de frente para mim. Deus, aquele peitoral estava de matar. Quanto será de peso que ele levanta? Tem que ser muito, porque olha...
- Escutou alguma coisa que eu falei? – agora Luca chacoalhava meus ombros, enquanto eu o encarava com uma carinha de boba. Droga, se ele continuar me chacoalhando, eu não vou conseguir apreciar seu abdômen direito. 
Se eu olhasse um pouquinho mais para baixo, conseguiria ver seu material de prazer. Uma risadinha escapou dos meus lábios. 
- Ótimo, agora está começando a delirar. Que beleza. – ele me pegou no colo e me carregou escada acima, até chegarmos a um quarto enorme, com uma cama enorme, um abajur enorme, uma lâmpada enorme.
E eu sendo carregada por um homem enorme.
Ri de novo, dessa vez mais alto. 
Senti meu corpo ficar mole, como uma gelatina de framboesa. Meus olhos começaram a se fechar lentamente, e eu tentava lutar contra o cansaço repentino. 
- Não mamãe, eu não quero dormir! – resmunguei. 
Depois de tanto esforço em vão, minha visão tornou-se escura e comecei um sono pesado. 

Luca


Fiquei uma hora do lado de Liriel, apreensivo, esperando que ela acordasse e segurando sua mão forte. Tudo o que eu precisava estava na escrivaninha ao lado da cama: água, remédios para gripe, lencinhos umedecidos, comidas saudáveis para quando ela acordasse... Queria que ela melhorasse o mais rápido possível. 

Ela parecia exausta enquanto dormia, com a testa brilhando de suor, e com uma pequena careta no rosto. Mesmo assim tão linda. Com aqueles lábios deliciosos, aquele cabelo sedoso, aquelas bochechas coradas e perfeitas, aqueles seios perfeitos. 
“Até quando ela estava doente eu saia como um tirp pervertido e observador de seios”, pensei, alisando sua testa. 
- Não... Roberto... Galinheiro... Biscate. – ela murmurou com os olhos fechados, se revirando na cama. 
- O que, minha linda? – perguntei no seu ouvido, prensando meus lábios na sua bochecha. 
E então ela abriu os olhos, que estavam em um leve tom avermelhado, e pareciam cheios de lágrimas. Senti como se uma faca estivesse sendo enfiada no meu coração. 
- Roberto é um cafajeste, eles me disseram, me disseram. – ela disse baixinho, com lágrimas escorrendo. 
Levantei um pouco seu corpo para que eu sentasse melhor na cama e repousasse sua cabeça nas minhas pernas. 
- Por que, meu amor? – perguntei, acariciando seus cabelos macios e cheirosos como lírios. 
- Roberto, Robertinha, odeio eles. Odeio. – ela continuava falando sem parar, aconchegando-se mais ao meu colo, tentando encostar sua cabeça na minha barriga. – Abdômen. Seu abdômen é muito bom. Musculoso. 
Ela passou as mãos na minha barriga lentamente, por cima da camisa. Senti o tigre dentro de mim rugir alto. 
“Não, seu idiota, ela está doente!”, eu gritava para o meu inconsciente. 
Quando ela tentou enfiar a mão por debaixo da minha camisa, segurei seus braços carinhosamente e afastei. Eu tive que criar uma força de vontade enorme para fazer isso.
- Você também não me quer! – ela berrou, chorando. 
- Liriel, me escute. – segurei seu rosto e olhei no fundo dos seus olhos. – Eu te quero mais do que você pensa, do que você sequer imaginou na sua vida. 
- Sério? – ela perguntou, com os olhos brilhando. 
- Sério. 
- Então ta. – ela voltou a deitar no meu colo, dessa vez fechando os olhos e suspirando, tentando dormir.
Continuei acariciando seus cabelos, me sentindo um idiota. Tomara que ela não se lembre disso. 

Liriel


Acordei em um travesseiro meio duro. Quer dizer, já estava acordada, mas não queria abrir os olhos. Espalmei minhas mãos pela cama, e encontrei outra mão macia e forte. Dei um sorriso.

Espera... Outra mão?! 
Abri os olhos devagar e constatei que estava deitada no peitoral definido do Luca, que também cochilava, mesmo parecendo desconfortável. Levantei assustada e comecei a balançar seus braços, na tentativa de o despertar. Quando aqueles olhos castanhos se abriram para mim, quis mergulhar dentro deles. 
Isso não estava certo!
- O senhor pode me explicar o que está acontecendo? – perguntei ríspida, tentando me lembrar como nós dois havíamos parado em uma cama. A última coisa que eu me lembro era de ter chegado à cozinha e ter me deparado com aquele peitoral maravilhoso e...
Ok Liriel, já chega!
- Bom, - ele se levantou, com um enorme sorriso brincalhão. – primeiro você me encurralou na pia da cozinha, me beijou e depois falou que queria eu e a minha barriga que você julga musculosa. 
- Você é hilário! – falei irônica. 
Antes de responder alguma coisa, ele chegou abruptamente perto de mim, checando minha temperatura com as costas das mãos.
- Sua febre passou. – ele disse sorrindo. 
- Um termômetro não seria mais eficaz? – perguntei, soando sarcástica.
- Por quê? Você quer estar com febre e passar mais um tempinho comigo? Talvez tendo mais alguns daqueles lindos delírios. 
Que beleza! Eu tendo delírios deve ser a visão do inferno. Encarei Luca incisivamente, e aproximei dele perigosamente, enquanto ele se afastava sorrindo, até parar do lado oposto da cama. 
- Delírios, é? – perguntei, andando lentamente com o olhar repleto de aspereza. Ele parecia ficar mais intimidado a cada minuto. – Eu falei alguma coisa que não deveria? 
Eu sabia que sim. Eu delirava muito quando era pequena, e sempre acabava falando coisas desnecessárias. Como uma pessoa bêbada. 
- Falou sobre Roberto, Robertinha, meu abdômen sarado... – ele disse, gargalhando. Peguei o travesseiro mais próximo e ataquei ele com tamanha precisão, acertando sua cabeça
Ele, parecendo pasmo, pegou o objeto e jogou de volta, acertando meu braço. 
- Ah, agora é guerra! – agarrei o travesseiro e comecei a bater na sua cabeça, gritando. 
Luca quis parar a diversão na hora, tomando minha arma de batalha e jogando longe. Me levou até a parede e me aprisionou lá, e antes de olhar em meus olhos, deu uma boa checada na minha perna que estava mais a mostra do que deveria. 
- Chega, - ele murmurou próximo de mim, e olhando para os meus lábios. – Você tem que tomar seus remédios. 
Ele tirou seus braços fortes em torno de mim e foi até a escrivaninha, onde tinha um remédio provavelmente para gripe. Ele me entregou um comprimido branco e um copo de água. 
Tomei sem protestar, encarando Luca com cara de anjinho. 
- Não precisava de me ajudar, eu conseguiria me virar sozinha. – falei usando um tom de voz que sugeria superioridade e entreguei o copo vazio à ele, sentando na cama. 
- Você é tão cabeça dura e orgulhosa. – ele disse convicto, parecendo tomado pela exaustão.  Sentou-se do meu lado e ficou encarando a parede branca do quarto. 
Bufei descontente. Sim, eu era cabeça dura. E orgulhosa também. Só que ninguém fazia a questão de jogar tudo isso na minha cara. 
- Pelo menos eu não sou regada a falsas simpatias. – sorri irônica, mas o meu sorriso morreu quando vi que ele me olhava incrédulo. 
Ok, eu exagerei um pouquinho nessa. Ele realmente era gentil. Com todos. 
- Desculpa. – falei, levantando e ajeitando o vestido, enquanto procurava meus chinelos. 
Ele não respondeu. Apenas me olhou sorrindo sincero. Esse garoto me assustava. 
- Você nunca se zanga? – perguntei exaltada, com uma das mãos na cintura, o assistindo levantar da cama e pegar as chaves de algum carro qualquer.
- Não com você. – ele saiu do quarto assoviando. Fiquei parada lá, tentando absorver a simpatia dele. Ok, então ele é mais calmo do que deveria ser. – Vai ficar aí ou vai querer que eu te leve para casa? – ele perguntou voltando para o quarto. 
Saí correndo atrás dele. 

Luca


Levei minha princesa dos lírios cheirosos até a sua casa, e o seu doce perfume ficou entranhado no carro, me fazendo ficar lá dentro mesmo depois de ter estacionado o veículo na garagem. 

Fechei os olhos, inalando aquele odor que despertava um tigre descontrolado dentro de mim. Assustei quando escutei batidas na janela. Era Alex, me olhando como se eu fosse um louco. 
- Resolveu dormir dentro da garagem? – zombou Alex, enquanto eu abaixava o vidro do carro relutante, com medo do cheiro dela desaparecer de vez. 
- Só estou meditando. – respondi com elegância. Ele arqueou uma sobrancelha. 
- Ou você deu uma carona para sua consorte, o cheiro dela permanece aí e você quer aproveitar. Eu te garanto... É pior. Experiência própria. – ele abriu a porta do carro e me tirou de lá. 
- Você fazia isso? – perguntei com curiosidade, fazendo com que ele me encarasse com certo divertimento. 
- Eu ainda faço. – confessou. – Isso vicia. Corte essa mania. 
Meu irmão me dando conselhos? Não deveria ser o contrário? 
- Lembrarei disso. – respondi desconfiado. 
Ele entrou em casa. E eu fiquei assustado com a cara de preocupação que o meu irmão me lançava. Sinto que eu vou sofrer muito. 

Liriel 


Estava andando pelo campus atordoada, procurando em cada canto Roberto. Queria pedir desculpas, queria abraçar ele, beijar ele, dizer que o amava... Maldição, eu iria engolir todo o meu orgulho só para não perdê-lo. 

Quando o encontrei, agradeci mentalmente por não ter dito nada daquilo antes. Roberto e Robertinha biscate estavam aos amassos quentes na frente de todo mundo, no corredor. 
Aquela pouca vergonha foi demais. Agora nada me segura! 
Marchei até eles, parecendo uma onça furiosa, e empurrei Robertinha para longe, ficando de cara com Roberto. Dei um estalado tapa na sua cara. 
Seu rosto ficou virado para o chão, provavelmente digerindo o que eu tinha acabado de fazer. Quando seus olhos verdes cintilaram de fúria para mim, sorri irônica. 
- Pelo menos poderia ter terminado comigo, canalha. – vociferei, sem nenhum pingo de vergonha daqueles olhares pousando em cima de nós. O ódio era tão grande, que nem havia tempo para reclamar disso. 
- Sua vadia! Quem você pensa que é para encostar em mim?! – ele exclamou, gritando em plenos pulmões, querendo que todos ouvissem o showzinho. – Robertinha é para mim o que você nunca foi. 
- Desculpa se eu não quis abrir as pernas para você no primeiro encontro, amorzinho. – respondi irônica, causando grande comoção nos estudantes.
Não tenho culpa se eu gosto de falar somente a verdade. 
Quando Roberto fez menção em levantar a mão direita para mim, uma pessoa entrou na minha frente e segurou o braço dele. Pelo gemido de dor que ele deu, o aperto foi forte. 
 Luca tinha uma expressão feroz no rosto, como se estivesse pronto para se transformar em um animal louco e estraçalhar o corpo de Roberto. 
- Nunca, jamais, em hipótese alguma, levante a mão para uma dama. Principalmente para essa. – ele disse, com a voz mortalmente baixa e perigosa. 
Um calafrio subiu pela minha espinha. Mordi os lábios e toquei o ombro de Luca com hesitação. Senti seus músculos se tencionarem com meu toque. 
- Não precisa fazer isso. Ele não merece essa atenção. – falei. 
Quando ele me encarou, seu olhar se suavizou drasticamente, perdendo aquele tom assassino e amedrontador. Sua mão saiu do braço de Roberto e pegou nas minhas com uma delicadeza exagerada. 
- Você está bem? – ele sussurrou. Assenti com a cabeça. – Vamos sair daqui. 
E então ele me puxou por aquele corredor cheio de gente, deixando Roberto esfregando o antebraço com uma careta de dor. Robertinha apenas assistia a cena com um falso espanto, mas no fundo pude ver que ela gostava mesmo é de aparecer. 
- Vem, deixa eu te tirar daqui. – ele disse, me olhando nos olhos. 
Enquanto Luca me puxava, senti um baque na minha mente. Como se tudo aquilo fosse um sonho. Agora que toda a situação tinha passado, que a adrenalina que eu senti na hora de bater no Roberto havia se dissipado, eu percebi o que tinha acontecido. 
Eu havia sido traída na frente de todo mundo, por uma pessoa que eu amava. Senti um nó se formando na minha garganta e lágrimas se acumularem nos meus olhos.
Quando dei por mim, chorava como um bebezinho, enquanto Luca me abraçava forte no estacionamento, acariciando as minhas costas e murmurando palavras de conforto. 
- Venha comigo. – ele disse.
- Não, eu não posso, seu louco. – falei chorosa, limpando as lágrimas com as costas das mãos. 
- Você pode. Claro que pode. – respondeu com convicção. – Eu quero te levar em um lugar que eu gosto de ir para pensar. 
Ele me conduziu até sua moto e me entregou um capacete. Subi na garupa com receio. Meu coração estava em frangalhos, junto com a minha auto estima e a minha confiança em homens. 
Então por que eu estava montando na moto de um loiro delicioso que é amado por grande parte da faculdade? Eis os mistérios da vida. 
Depois de vários quilômetros percorridos, chegamos a uma praia completamente deserta. A única coisa que poderia se ouvir lá era as ondas quebrando e o cheiro da maré enchendo meus pulmões. 
Aquilo sim era paz. 
Sentamos na areia, próximos a água. Tirei as sandálias para molhar meus pés um pouco e fiquei admirando a vista, tentando apagar tudo o que tinha acontecido. 
Luca também parecia bastante absorvido em seus pensamentos. Mas um tempo depois, olhou para mim e sorriu. Aquela cena era perfeita: os ventos fortes bagunçavam seus cabelos dourados de forma charmosa, sua pele parecia reluzir com o sol que batia nele, seu sorriso era branco, sincero e tudo de repente pareceu ficar em câmera lenta. 
- Você escutou alguma coisa que eu falei? – ele resmungou em tom de brincadeira, e parecia querer rir. 
- Para falar verdade, não. – dei um sorriso amarelo, morrendo de vergonha de ficar hipnotizada tão facilmente. 
- Eu disse que aqui é melhor a noite. As estrelas brilham melhor nessa praia. – ele falou sério e eu reprimi um sorriso. 
- Isso soa estranho. 
- Eu sei. – ele riu, mas depois suas expressões se tornaram mais tristes. – Você é muito fechada, Liriel. Isso pode ser ruim. Pode desabafar comigo. Eu serei a única pessoa no mundo que nunca vai te julgar. 
Dei uma risada sem graça e voltei a olhar para a imensidão do mar. 
E então, sem mais nem menos, comecei a vomitar tudo o que eu sentia, tudo o que Roberto estava fazendo ao longo do tempo. Sua distância de mim, sua insensibilidade que foram seladas com chave de ouro pela traição da frente de toda Meriel. 
Depois de me escutar com paciência, o rosto de Luca se tornou compreensivo, mesmo parecendo repleto de dor. Droga Liriel, você não deveria ter contado tanto assim. 
- Desculpa por ter falado tanto. – falei subitamente, levantando da areia e me afastando. 
- Não, espera. – ele gritou, me puxando pelo braço e fazendo nossos corpos ficarem em uma distância perigosa. Aquela distância do seu corpo incrivelmente lindo que eu queria evitar ao máximo. – Eu amei te ouvir. Foi ótimo conhecer mais sobre você. 
Ele sorriu e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. Ai meu Deus, tomara que esse loiro não resolva me deixar mais sem graça do que eu já estou. 
- É bom saber que pelo menos alguém gosta de escutar meu falatório. – respondi sorrindo. – Mas agora eu tenho que ir para casa. 
Sem dizer nada, ele entrelaçou sua mão na minha e fomos caminhando até o carro. Era bom sentir o calor do corpo dele, mesmo que seja por uma coisa tão boba como um toque de mãos. 
Ele me levou até em casa e estacionou o carro. Já começava a anoitecer. 
- Não se preocupe com Roberto. – Luca finalmente falou, depois de um longo silêncio. – Ele não vai te incomodar, eu prometo. 
- Eu sei me cuidar, Luca. – falei, querendo que ele não se importasse tanto com essa situação. – Eu tenho deveres para fazer, livros para estudar e a minha última preocupação é o cafajeste. 
Ele sorriu e me puxou para dar um demorado beijo na minha testa. Não achei aquilo estranho igual eu acharia antes. Apenas um gesto de amizade que deixou meu corpo mais quente do que deveria. 
Dei um tchauzinho para ele. Luca só foi embora quando me viu entrando em casa. 
**
Hoje foi, de longe, o melhor dia de faculdade que eu tive. Luca e eu conversamos todos os horários, e aquele palhacinho loiro me fazia rir o tempo todo. Alguns professores até chamaram nossa atenção, o que nos fazia rir mais ainda.
Sim, eu havia achado meu melhor amigo. Até Amanda reparou a proximidade, e brincou falando que eu estava roubando o conselheiro dela. 
Na hora do refeitório, ele me convidou de novo para ir lanchar na mesa dos russos, e sem resistência eu aceitei, já que Roberto parecia ocupado em roubar meus antigos amigos. Todos me cumprimentaram, muito simpáticos. 
Conversa ia, conversa vinha, até que sentir uma mão cutucar forte as minhas costas. Nesse momento, eu estava rindo muito de uma piada que Luca tinha contado, mas meu sorriso morreu quando vi que quem estava atrás de mim era Roberto. 
- Perdeu alguma coisa aqui, amorzinho? – perguntei, piscando os olhos inocentemente.  
- Eu quero esclarecer uma coisinha aqui primeiro, Liriel. Eu só beijei Robertinha por ciúmes, ok? Mas já vi que você nem está sem importando mais com isso, já até achou outro otário para montar. – ele disse exaltado, atraindo olhares de todos os russos e encarando Luca diretamente. 
Agora eu só precisaria de um buraco para enfiar a minha cabeça. 
- Ela não deve satisfações a você. – ele falou polido, mas parecendo conter uma raiva. – Corrigindo: ela não deve a ninguém. Ela é minha namorada agora, então se for dirigir a palavra a ela, é melhor que não me irrite. 
Fiquei assustada com a atitude de Luca. Mas amei a cara que Roberto fez quando ouviu a falsa notícia. Ele parecia descrente. 
- Ah, então vocês namoram? – Roberto perguntou, a ponto de explodir de ódio do meio do refeitório. 
- Sim. – Luca respondeu firmemente, e com os olhos semicerrados. 
E para fechar o espetáculo de forma memorável, sem mais nem menos, Luca puxou meu pescoço e me lascou um beijo, daqueles de cinema. No começo fiquei assustada, mas senti uma coisa entrar em combustão dentro de mim quando senti sua boca tocando a minha de forma quente e esfomeada. 
Ele arrastou minha cadeira para mais perto, me prendendo mais ainda em seu beijo, explorando cada canto da minha boca. Eu me derreti completamente por aquele loiro louco. 
Quando nossos lábios se separaram, a boca de Luca estava mais rosada que nunca. Meu Deus, que covardia! 
Roberto soltou uma risada áspera, cheia de rancor. 
- Ah, então quer dizer que você já abriu as pernas para ele, Liriel? – indagou irônico. Luca levantou de lá em um pulo, prontíssimo para dar um soco na cara daquele cafajeste. 
- Calminha, - falei, puxando sua mão até mim e fazendo seu corpo se virar. – vamos fazer coisas mais produtivas do que sujar a mão com certos trastes. – encarei Roberto de forma sarcástica. 
E então olhei para Luca e para aqueles lábios rosados de matar, e o puxei para mais um beijo, pendurando em seu pescoço. Brinquei com seus lábios, puxando um pouco o inferior, e pude escutar ele soltar um gemido abafado. Suas mãos foram rapidamente até a minha cintura, e ele colou nossos corpos. 
De repente, o sinal tocou, fazendo nossas bocas se separarem relutantes. Roberto já tinha ido e os russos estavam saindo da mesa, uns dando sorrisos para Luca. 
Separei dele correndo e mordi os lábios, que ainda tinham o gosto dele. 
- Eu tenho que ir, tchauzinho. – falei atropelando as palavras e saí correndo pelo refeitório, sem saber para onde ir já que eu e ele tínhamos exatamente as mesmas aulas.
Droga, Liriel, sua estúpida! Sabe como estragar uma amizade direitinho. 
Corri até o estacionamento e fiquei lá pensando, até que a última aula acabou e um pequeno fluxo de alunos. Minhas mãos estavam tremendo, eu tinha que pedir desculpas a Luca por aqueles beijos no refeitório, aquilo foi loucura. 
Vi ele de longe saindo e andei até ele com as mãos nos bolsos e olhando para baixo, com medo de olhar em seus olhos. 
- Hey, espera. – gritei, enquanto ele andava até um Jeep preto. Ele girou os calcanhares para me olhar, e eu resolvi continuar encarando apenas o chão. Eu nem sabia o que pensar direito. – Me desculpa ter te beijado, eu não queria ter te usado daquele jeito. Eu sei que você é um ótimo amigo, mas se quiser me deixar depois dessa eu entendo. 
Sentindo meus olhos se nublarem com lágrimas, saí correndo e deixei-o para trás. Ele estava estático. 
Amanda
Andei até Alex, que estava encostado no seu Jeep me esperando, com as mãos dentro dos bolsos da sua calça jeans apertada. Que realçava seu bumbum perfeito. Eu tinha visto Liriel conversar com ele e sair correndo. Tomara que esse loiro poste não tenha falado nada de mau com ela. 
- Acho que você não deveria assustar a futura namorada do seu irmão. – xinguei ele, fazendo com que um sorriso irônico da parte do poste saísse. 
- Eu não a assustei, nanica. – ele me disse, me puxando pela cintura. – Ela achou que era o Luca, e começou a falar coisas sobre ela ter usado ela. Pobrezinha. 
Então deu uma gargalhada maldosa. 
- Para de rir da Liri, seu idiota. – estapeei seu braço e ele me puxou mais para perto. Tentei desvencilhar do seu aperto. 
- Por que você estava rindo da Liriel? – uma voz veio áspera atrás de nós, impedindo que Alex começasse a beijar meu pescoço, coisa que ele sempre fazia quando me irritava. 
Alex afrouxou seus braços, e me virei lentamente até dar de cara com Luca revestindo um rosto sério. Meu Deus, acho que o meu Luquinha feliz morreu! 
- Ela acha que te usou para fazer ciúmes no ex dela, e agora está com peso na consciência. Ela só me contou porque achou que era você. Nem olhou para a minha cara. – Alex respondeu, com o tom de voz baixo, provavelmente envergonhado por rir dela. 
Rá! Agora ficou com peso na consciência, né, senhor poste? 
Luca saiu correndo e pegou sua moto. Conhecendo bem o garoto, eu não diria que ele iria atrás da Liriel, pelo fato de ser uma atitude impulsiva. 
Mas quando eles fazem coisas pelas consortes, tudo muda, raciocinei apreensiva, enquanto Alex me puxava de novo.  
Liriel 
Desabei no sofá da sala, devido ao cansaço que eu estava por ter corrido da Meriel até minha casa. Eu deveria ter pelo menos olhado para a cara do Luca. Droga, como eu sou idiota. 
Escutei batidas ressoarem fortes da porta de entrada. Fui abrir, e me deparei com Luca me encarando com um sorriso daqueles de arrancar o fôlego. Vi sua moto preta no meio fio e ergui as sobrancelhas para ele. Achei que ele estava de carro hoje. 
- Eu não sabia que você tinha usado meu irmão. – falou Luca, escondendo um sorriso. – Ele me contou que você estava desconsolável hoje. 
Mordi os lábios com força. Ah, que ótimo! Eu tinha dado meu show de loucura para a cópia mal humorada. Deveria ter olhado para ele melhor. 
- Olha Luca... – comecei, tentando explicar o que eu queria dizer, mas fui interrompida. 
- Posso entrar? – ele perguntou, sorridente. Ele parecia disposto a ignorar tudo o que eu falasse. 
- Claro. – murmurei, enquanto dava espaço para ele entrar. Seus olhos correram por toda extensão da casa. – Sua casa é belíssima, e...
- Desculpa. – passei as mãos no cabelo e o encarei. – Foi errado o que eu fiz no refeitório. 
- Você fala como se tivesse me forçado a fazer alguma coisa. – ele disse em um tom ameno, indo até mim e segurando minhas mãos. – Não se preocupe, nós somos só amigos se ajudando. Certo? 
- Certo. – respondi com pouca convicção no que falava, e sentindo uma torção no estômago. 
- Agora eu tenho que ir. – ele depositou um beijo carinhoso na minha testa e foi em direção a porta. – Amanha a gente se vê.  
E então saiu, me deixando plantada na sala de televisão. Meu rosto provavelmente estava nas mesmas proporções de um tomate maduro. Maldição, além de terminar com o meu namorado, eu sentia que estava prestes a ter sentimentos por um possível melhor amigo. 
Eu era uma idiota mesmo. Mesmo eu sabendo que ele era afim de mim no começo, aposto que agora ele desistiu de mim. Cheia de problemas, deprimida por terminar um namoro...
Nenhum homem agüentaria isso. 
Deitei no sofá e tentei tirar um cochilo. Dormir é a única opção agora. 

Luca


Andava de um lado para o outro na biblioteca da minha casa, esperando que Roran chegasse. Cada vez mais sentia meu coração martelar forte. 

Quando escutei meu pai entrar, fiquei um pouco mais aliviado, mas não o bastante para que a tensão passasse. 
- O que você quer, meu filho? – ele perguntou, sentando em uma das mesas e me olhando. 
- Eu quero... – respirei fundo. – Eu quero voltar para a Inglaterra. 
- Seu irmão me contou sobre a consorte. – ele disse, me ignorando. – Você não pode fugir quando as coisas ficam difíceis. Elas podem ser demoradas para conquistar. Nada acontece de imediato. 
- Você não entende. – falei excessivamente calmo. – As coisas com minha mãe foram extremamente rápidas. 
- Esse não é o ponto...
- É sim. – queria encerrar o assunto rápido, chega de conselhos inúteis. – Eu vou voltar para a Inglaterra, com ou sem o seu consentimento. 
Meu pai suspirou, e se levantou, caminhando para a saída com um olhar triste. 
- Vou providenciar as passagens para daqui um mês. – ele respondeu baixo, me olhando com o canto dos olhos. 
Ótimo. Eu não iria forçar Liriel a ter algo comigo. Ela obviamente só era a minha amiga e não queria nada, além disso, comigo. 
E eu a amo demais para forçá-la a alguma coisa. 

Liriel 


Quanto mais o tempo se passava, mais eu ficava apegada a Luca. Suas piadas sem graça que me faziam rir, nossos estudos combinados que sempre terminavam em conversas fiadas... Tudo era ótimo. 

Já faziam três semanas que nós estávamos andando juntos. Sua companhia era necessária para o meu dia ficar feliz e era impossível viver sem aquele sorriso e aqueles lábios rosados. Que davam vontade de beijar.
Eu sei que é errado, mas fala sério, só uma anormal não teria vontade de beijá-lo. 
Além do mais, ele evitava qualquer aproximação do Roberto, o que me deixava mais feliz ainda. 
Estava absorta em meus pensamentos, quando saí da faculdade e me entregaram um convite para um luau que iria ser amanhã. Meus olhos até brilharam de alegria. Eu sou, definitivamente, apaixonada por luaus. 
Vi Luca do outro lado do estacionamento, e dei um sorrisão para ele. 
- Luau. Nós temos que ir. – balancei o convite na sua frente, até ele resolver pegar e ler com atenção. 
- Ah, Liriel, antes de tudo, eu tenho que te contar uma coisa. – ele coçava a cabeça, parecendo desconfortável. 
- Não aceito um não como resposta. – falei antes de ele recusar ir. 
- Mas... 
- Não. – interrompi. 
- Ok, - ele disse derrotado, dando um sorriso fraco. – Eu passo na sua casa amanhã, as oito. 
- Ótimo. – comecei a bater palminhas freneticamente. Ele começou a rir. 
- Vocês receberam um convite para um luau. – Amanda chegou gritando, balançando o convite do mesmo jeito que eu tinha feito na cara do Luca. 
- Isso virou moda? – Luca perguntou irônico, tirando o convite de sua cara. 
- Ai, como eu odeio luaus. – Alex resmungou, chegando atrás da Amanda. – Mas parece que eu vou ser obrigado a ir. 
- Mas eu já disse que você não precisa ir, senhor poste. – Amanda disse, claramente mal humorada pelo desânimo do namorado. 
- E deixar você ir sozinha? Nem pensar. – ela revirou os olhos e deu um sorriso cúmplice para mim, sem dizer nada. 
- Perdi alguma coisa? – perguntei. 
- Você e eu. Compras. Hoje. Não adianta negar. – Amanda disse convicta em não aceitar um não. 
Uh, agora eu sei como Luca se sente, pensei, dando um sorriso, já pensando no cansaço que eu teria em carregar as sacolas da Amanda.
Aconteceu isso da última vez. Me lembre de ocupar meus braços com as minhas próprias sacolas. 
** 
Alex deu o seu cartão de crédito sem limites – sim, pasmem! – para que Amanda gastasse com o que quisesse. Se ele mimava a namorada dele? Imagina. 
Ah, e ela também ofereceu a pagar qualquer coisa para mim. O que eu recusei na hora. Mas a insistência dela começou a me irritar, então resolvi aceitar. Mas a única coisa que eu tinha comprado até agora foi uma garrafinha de água.
- Então, o que você acha desse? – perguntei para ela, enquanto balançava um vestido longo qualquer que tinha achado perdido na loja. 
- Lindo. – ela disse. – Você vai totalmente arrebatar o Luca hoje. 
Engasguei com a água e senti minhas bochechas queimarem, enquanto a encarava horrorizada. 
- Arrebatar? – perguntei, ainda engasgando com a situação. 
- Ah, não dê uma de inocente comigo agora. – ela se aproximou de mim, balançando um dedo na minha cara. – Eu sei que você é doida com ele. E sinceramente, eu não te culpo. 
Essas insinuações me deixaram envergonhada ao ponto de engasgar de novo, dessa vez com a minha própria saliva. 
- Isso é loucura. – empinei o queixo e disse em um tom de “assunto encerrado”. Ela bufou insatisfeita e voltou a procurar outros vestidos. 
Qualquer dia desses essa menina me mata de tanta vergonha. 
**
 O luau estava sendo na mesma praia que Luca me levara há algumas semanas atrás. As estrelas brilhavam excepcionalmente bem daqui. 
“Odeio admitir isso, mas ele estava certo”, pensei enquanto varria os olhos pelas pessoas até achar o Luca. Encontrei ele conversando com sua cópia resmungona e ele vestia uma bermuda branca, com uma camisa da mesma cor que estava um pouco aberta, deixando aparecer alguns poucos músculos. 
Hoje ele mata alguma desavisada!
- Curtindo? – perguntei chegando perto dos dois. 
Alex parecia mal humorado, e me respondeu em um rosnado:
- Não. A tampinha desapareceu. Hoje eu mato ela. – e saiu pisando duro pela praia, enquanto deixava eu e Luca sozinhos. 
- Seu irmão parece... 
- Paranóico? Perturbado? Esquisito? Obcecado? É, eu sei. – ele disse, completando o que eu iria dizer, o que me fez rir muito. 
- Eu iria dizer bravo, mas valeu a tentativa de adivinhar. – mostrei a língua para ele em tom de brincadeira. 
E, para a minha surpresa, minha música predileta do Jason Mraz começou a tocar. A melodia de Lucky ecoava nos meus ouvidos, até eu perceber que estava balançando o corpo no ritmo da música. 
Luca me olhou de esguelha, me vendo dançar, e perguntou:
- A senhorita me concede essa dança? 
Em vez de responder, o puxei até onde todos estavam dançando e colei meu rosto no seu peitoral sarado, enquanto ele me conduzia no meio de todo mundo. 
Sua mão estava bem posicionada na minha cintura, o que me causava arrepios constantes. Mordi os lábios com força, tentando desviar a atenção das suas mãos quentes no meu corpo. Ou dos seus lábios rosados tão perto, tão perto...
Acho que tinha uma possibilidade da Amanda estar certa. Eu poderia estar gostando um pouquinho do Luca. Ou ter um tipo de atração por ele. 
Ou estar apaixonada por ele. E a música que tocava ainda reforçava meu pensamento de que eu estava amando meu melhor amigo. 
- Liriel. – Luca murmurou no meu ouvido, me tirando do transe que eu estava. A música já havia acabado, e outra estava começando. – Eu preciso te contar uma coisa.  
- Vem, vamos dar uma caminhada na praia. – falei já puxando ele até um lugar mais afastado do luau. 
Chegamos a um ponto em que a música que tocava na festa era apenas um leve barulho que as ondas que quebravam superavam. 
- As estrelas brilham melhor daqui. – ele disse, ainda segurando a minha mão. 
- Luca... – sussurrei, querendo confessar que eu gostava dele mais do que uma simples amiga. 
- Espera. – interrompeu Luca, se virando para mim. – Eu tenho que te contar uma coisa. Prometa que não vai ficar brava comigo. 
“Sempre que uma pessoa fala isso, quer dizer que eu provavelmente vou ficar com raiva dela” – pensei, já carrancuda e colocando as mãos na cintura, esperando que ele falasse. 
- Pode falar. – não vou prometer nada, porque se for coisa séria eu vou ter o direito de ficar com raiva.
- Amanhã eu volto para a Inglaterra. Eu preciso de um tempo para mim, para pensar. Eu sei que soou gay, mas eu li naquelas revistas femininas que você tem que um homem tem que ser sincero. – ele disse, se embolando nas próprias palavras. Seu nervosismo estava nítido. Provavelmente meu ódio e a minha angústia também.
- O que?! – esganicei, sentindo meu corpo tremer só de pensar na possibilidade de ele ficar longe de mim. Meu pulso estava acelerado e Luca me encarava com preocupação. 
Eu não poderia contar para ele que eu o amo. 
Espera, eu o amo? Ah, que se dane, amo mesmo. Quem ai vai me julgar? 
- Não acredito, por que não me avisou antes? Por que você tem que ir? – gritei, batendo os punhos no seu peitoral, que parecia ser feito de ferro. – Por quê? Por quê? E eu falei para você parar de ler as minhas revistas! 
- Calma. – murmurou sereno, segurando meus braços. – Eu já te contei o porquê.
- Não pode ser isso. – respondi incrédula. – Tem que ter um motivo a mais. 
- Tem um motivo. – ele disse. – Mas se eu te contar, você vai poder me impedir, porém vai ter que mentir para mim. 
- Quer saber de uma coisa? Vai mesmo. E nunca mais me procure, ok? Nunca mais. Eu te odeio. – sai correndo como uma criancinha idiota, sentindo meus olhos arderem em lágrimas. 
Ele não veio atrás de mim. Não sabia se isso era bom ou ruim. 
**
Acordei esparramada no sofá e sentindo a minha coluna doer. Meus olhos provavelmente estavam inchados. Eu chorei tanto, que um vizinho bonitinho até veio ver se eu estava bem. 
Botei o menino para correr em dois tempos. Coitado. 
Peguei meu celular e vi que eram nove da manhã. Eu nunca dormia tanto. Obrigada por me fazer dar uma de dorminhoca, Luca. 
E falando em Luca, ele tinha me mandado três mensagens. A última falava para encontrar ele no aeroporto as dez e meia. Para se despedir. 
Senti meus olhos encherem d’água. Mas ele tinha que ir, ser feliz, viver sua vida. Talvez longe de mim seria melhor para ele. 
Fui até o banheiro tomar banho, vesti uma calça jeans confortável e uma blusa simples, calcei minhas sapatilhas e fui para lá, com a cara e a coragem, morrendo de medo de ter um ataque de choro na frente dele. 
Eu iria fazer papel de ridícula, vamos combinar. 
Chamei um táxi para me levar até lá e em vinte minutos cheguei ao aeroporto. 
Já era dez e dez, e Luca disse que iria me esperar em uma cafeteria que tinha no lugar. Encontrei-o sentado em uma das mesas, pensativo e bebericando um café.
Quando me viu chegando, deu um sorriso tão deslumbrante, que senti meu coração falhar por alguns segundos. 
- Ainda bem que você veio, não iria aguentar não despedir de você. – ele disse, vindo ao meu encontro e me abraçando forte, me levantando um pouco do chão. Ele parecia feliz, poderia dizer que estava até radiante. 
- Eu sei, sou demais. – murmurei, tentando parecer animada com a sua decisão repentina de ir embora. Dei um soquinho no seu abdômen quando vi que ele me encarava com preocupação. – Animado para a Inglaterra? 
- Muito. – Seu sorriso saiu meio forçado, mas resolvi não comentar. – Eu vou sentir sua falta. 
- Eu também. – senti meus olhos arderem. Escutei aquela voz irritante chamar os passageiros para a fila de embarque para a Inglaterra. 
- É o meu vôo. – ele disse, com sua animação voltando. – Só vou pagar o meu café e já volto. 
- Pega uma água para mim também. – disse, repentinamente, com uma ideia maquinando na minha cabeça. 
Eu precisava ganhar mais tempo. 
- Claro. – ele disse com um meio sorriso. Deixou sua bagagem de mão em cima da mesa. – Cuida para mim, ok? 
Enquanto ele se afastava, peguei um guardanapo na mesa, arranquei uma caneta da minha bolsa e escrevi tudo o que eu queria falar com ele. Minha letra provavelmente estava horrível, porque minha mão não parava de tremer. 
Enfiei o bilhetinho em um dos pequenos bolsos da mala dele e deixei o lugar, sem ao menos dar um último adeus. Seria sofrimento demais para mim. 
Saí correndo e fui até uma outra plataforma, aonde dava para ver o avião que ele iria embarcar. 
Fiquei esperando, sentindo meu coração martelar cada vez mais forte, doendo dentro de mim. 

Luca


Quando cheguei até a mesa, Liriel já tinha partido e junto com ela meu coração. Me sentia despedaçado, mas não queria demonstrar, porque senão ela iria insistir para me ficar, e eu não sei se agüentaria ficar perto dela por mais tempo sem poder tocá-la, beijá-la, tratar de um jeito especial. 

Peguei minha bagagem e fui até a fila de embarque. Senti meu coração batendo forte. O que aquela revistinha de menininhas dizia mesmo? 
Comer chocolate ajuda a curar corações partidos. 
Era isso que eu ia fazer. Comer um bom e delicioso chocolate. Enfiei minha mão dentro da minha malinha, procurando por dinheiro enquanto a fila ainda estava longa, e encontrei um papelzinho lá dentro. 
Puxei ele para fora, e se tratava de um guardanapo todo amassado. Enquanto isso, a fila continuava andando. 
“No luau eu disse que tinha algo a dizer, e nunca disse. Mas não posso deixar você ir sem que saiba disso. Eu te amo e espero que seja muito feliz. Até algum dia."
Eu conhecia aquela letra.
Encarei o bilhete perplexo e quando dei por mim, era o primeiro da fila para o embarque. Deixei o bilhete cair no chão, e a aeromoça que passava pegou e disse:
- Isso é fofo. Esperava mandar essa mensagem para alguém? – ela estendeu a mão para me entregar o papel. Peguei ele e saí correndo, como um louco no meio do aeroporto. 
Dane-se Inglaterra, eu iria pegar a minha mulher. 

Liriel


Abracei meus braços, sentindo um frio tomar conta de mim e me fazer arrepiar. Acompanhei o avião de Luca decolando e meu estômago começou a embrulhar. Comecei a pensar que a ideia do bilhete foi péssima. Ele provavelmente iria ficar triste, eu o conhecia tão bem. 

 Senti lágrimas rolarem nas minhas bochechas e comecei a soluçar que nem um bebê. As pessoas ao redor me olhavam com pena, como se entendessem o que eu estava sentindo. Provavelmente eu não fui a primeira a fazer ceninha nesse aeroporto. 
- Espero que não seja tarde demais para esse algum dia. – uma voz rouca e grossa disse atrás de mim. Aquele tom era inconfundível. 
Virei para trás e vi Luca, parado com as mãos nos bolsos do jeans e a mala no chão, me encarando com um meio sorriso. 
- Você não foi. – disse em um sussurro praticamente inaudível. Mas parecia que Luca havia escutado perfeitamente, e o seu sorriso alargou enquanto ele se aproximava de mim à passos exageradamente lentos, o que me deixava mais nervosa ainda. 
- Não. Eu li o seu bilhete. Era tudo o que eu precisava saber. Era o único motivo para me ficar aqui, o único motivo que fez minha vida valer a pena de novo. – senti meu coração martelar forte dentro do meu peito, enquanto ele me encarava com uma serenidade que deixava qualquer uma louca. 
Ele se aproximou e me ergueu pela cintura, deixando nossos lábios próximos. Muita gente assistia a cena, mas não fiquei nem um pouco envergonhada. 
- Eu te amo. – ele sussurrou antes de eu colar nossos lábios desesperadamente, e sentir sua boca se moldar a minha com tamanha perfeição. Suas mãos agarraram minha cintura com possessão. 
O que antes era um filme romântico para os espectadores do aeroporto agora era uma preliminar de filme pornô. 
Brincadeira, ainda estava fofo. 
Separei nossos lábios, e senti os meus inchados. Sorri com a sensação boa que era beijar aquela boca rosada.  
- Eu também te amo. – respondi, fazendo com que o seu sorriso se alongasse. 
E tudo agora ficaria bem. 

Uma semana depois


Acho que me arrastar para esta floresta atrás da universidade não foi uma das melhores ideias românticas do Luca. Eu amava natureza, mas estava muito cansada para ficar fazendo trilha, devido a maratona de filmes antigos que eu e Luca tínhamos feito ontem. 

- Aqui está bom. – disse Luca parando abruptamente e tirando sua mochila das costas. Parei também e olhei para os lados com curiosidade. Tudo o que eu via era árvores. 
- Bom? Bom para que, Luca? – perguntei curiosa, querendo saber que motivo o levou a me trazer a este lugar. 
- Tem uma revista sua que me disse que um casal tem que ter cem por cento de confiança um no outro. Você confia em mim?
- Andou lendo minhas revistas de novo? – bati os pés no chão esperando a resposta e ignorando sua pergunta.
- Li sim, e quero que você me responda. – ele revirou os olhos, querendo rir. O jeito que seu corpo se movia fazia com que seu nervosismo transparecesse. 
- Sim, eu confio. – respondi entediada. 
- E se eu te dissesse que eu queria te contar um segredo de família absurdo? – ele disse já mudando de assunto. Aquilo estava me deixando apreensiva. 
- Eu iria querer saber. Só fale por que nós estamos aqui. 
- Eu tenho que te mostrar uma coisa. Não se assuste, eu te amo. – ele sorriu e se afastou de mim. Cruzei os braços e fiquei esperando. 
Luca espirrou. E quando ele fez isso, no seu lugar um majestoso tigre branco apareceu. A única coisa que sobrara dele foi os trapos de suas roupas e a mochila no chão. 
Fiquei em estado de choque. Meu corpo não se movia, meus olhos se recusaram a piscar e o meu pulmão se recusou a inalar oxigênio. 
- Que... Merda... É... Essa? – disse pausadamente, sentindo minhas mãos tremerem. Quando o tigre se aproximou, fiquei mais nervosa ainda.
Algo na minha mente sussurrou “Não se preocupe, ele não vai te machucar”. De repente senti um pouco de coragem de me aproximar dele também. 
Agora estávamos frente a frente, tigre e eu. Ele parecia ter o maior cuidado em se mover, e fazia o possível para não fazer movimentos bruscos. A primeira coisa que ele fez como sinal de paz foi dar uma bela lambida na minha mão. 
Dei uma risada trêmula. 
- Antes Luca. Agora tigre. – tentei movimentar as engrenagens na minha cabeça, que por um momento se recusavam a imaginar que um ser humano poderia virar um tigre. 
De repente, o tigre começou a me rodear, e a relar nas minhas pernas. Abaixei sentindo que estava segura, e acariciei suas orelhas, como se ele fosse um simples gatinho. 
Quando escutei ele ronronar, minha cabeça deu voltas. Meu namorado era um tigre que mais parecia um gato. E eu achando que a minha vida era estranha antes. 
“Você não viu nada, Liriel.” 
O tigre espirrou e se transformou no Luca. Agora nu, com seu membro viril exposto para qualquer desavisada. Tentei não olhar por muito tempo, e por fim desviei os olhos envergonhada. 
Depois dessa, sonhos pervertidos serão mais comuns do que antes. 
O que? Até parece que sou santa!
Luca percebendo meu desconforto pela situação pegou sua mochila e vestiu algumas roupas que estavam dentro dela. Até então, nenhuma palavra foi dita por aqueles lábios rosados. 
- Assustada? – ele disse, se aproximando e desenhando o contorno da minha boca com os dedos, de forma carinhosa. 
 - Sim. Mas acho que foi só um choque inicial. – dei um meio sorriso e senti suas mãos puxarem meu corpo meio cambaleante, devido ao nervosismo de ver meu namorado se transformar em um animal. – Por que isso acontece? 
Luca me contou a história da maldição, que a cigana amaldiçoara seus ancestrais, os condenando a se transformarem em tigres. Além de que cada um tenha uma consorte, uma mulher especial para cada tigre, aquela que contém a sua parte humana e que carrega seu coração. Como eles as reconhecem? Pelo seu cheiro especial, que os deixa loucos.
Eu era a consorte de Luca. E cheirava a lírios.
- Mais assustada ainda? – ele sussurrou, beijando o lóbulo da minha orelha. 
- Sim. Será que podemos ir devagar com isso? – perguntei, me sentindo estranha pela descoberta de eu ser a mulher da vida de alguém. 
Nunca pensei que uma coisa dessas fosse acontecer comigo. 
-Eu não quero te pressionar a nada. Só não queria guardar esse segredo por muito tempo. Eu te amo, e agora você pode imaginar a dimensão do meu amor por você. – essas palavras fizeram meu coração inchar de alegria. 
Pulei em seu colo e colei nossos lábios. 
- Eu também te amo. 
E assim, eu passei o dia beijando meu namorado tigre no meio da floresta. 
Eu era a mulher mais sortuda do mundo!

(Por Amandinha)





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